A cota de malha

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– Filha, eu vou para a batalha;
No céu atina a má estrela:
Quero uma cota de malha
De tuas mãos de donzela.

– Pai, estarias seguro
Pelas mãos de uma mocinha?
Não sei forjar ferro duro;
Só entendo de agulha e linha.

– À noite, oferte o tecido
Ao Inferno! E com arremate,
Eu estarei protegido
Nesse cruento combate.

Lua-cheia em noite santa,
E sozinha ela urde a trama:
– Invoco o Inferno! E se espanta:
O fuso gira e se inflama.

Quando ela retira a linha
Daquele tear terrível,
Ele torna e redemoinha
Como por mão invisível.

Tão logo a armada se arranca,
O duque salta à vanguarda:
Sob a sua heráldica branca,
A cota de malha guarda.

Dele o inimigo se afasta;
Contra ele ninguém avança.
Despedaçando toda a hasta,
Quebra seta, sabre e lança.

E um infante o atalha no ato:
– Pára, homem sanguinolento!
De nada vale teu pacto:
É desfeito o encantamento.

A refrega os incendeia.
Eis rasgada e tinta a cota…
E ambos rolam pela areia,
Amaldiçoando a derrota…

A filha invade o sangrento
Campo. – Onde, o Duque? E depois,
Reconhece com lamento
A pugna horrenda dos dois.

– Minha filha, tu forjaste
A cota como as demais?
O Inferno não invocaste,
Ou não tens mãos virginais?

– Invoquei o Inferno, mas
A mão que teceu tua malha
Pertencera a esse rapaz…
Pai, eu teci tua mortalha!

 

L. Uhland. Tradução de Wagner Schadeck

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Ode I, 5. (A Pirra)

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Numa gruta, entre muitas rosas,
quem é o menino magro,
odorizado por perfumes líquidos,
a te oprimir o peito, Pirra?

Para quem tranças os cabelos loiros?
Com instáveis deuses, assustado
pela tormenta e as águas negras,
logo ele perderá toda a confiança.

Crédulo, investindo em teu ouro,
te espera livre sempre, sempre amável,
por ignorar teu ar de falsidade…
Pobre de quem dá crédito

ao teu brilho! Num templo,
em parede votiva,
eu pendurei as roupas úmidas
ao deus, senhor do mar.

 

Q. F. Horácio. Versão de Wagner Schadeck

Diante de Jerusalém

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(Segunda versão)

E ora estão diante de Jerusalém.
Depõem de suas almas as paixões,
……….invejas e ganâncias,
……….todo o orgulho cortês.

Por ora, diante de Jerusalém.
……….Com êxtase e contrição,
esquecem-se das rusgas contra os gregos;
esquecem-se da raiva pelos turcos.

Por ora, diante de Jerusalém.
Os cruzados, intrépidos e invictos,
punjantes nos ataques e campanhas,
estão estupefatos e hesitantes;
não prosseguem; como crianças tremem,
como crianças choram: eles choram
ao ver os muros de Jerusalém.

Constantino Caváfis
(1888/1892)
Tradução de Wagner Schadeck

Esperança

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De te rever de pé conta nos tempos idos.
Ante o teu corpo em sangue os teus sonhos perdidos,
ponho o meu coração a vibrar, na esperança
de te ver de pé como nos tempos idos.

Entre as afrontas vis, a tua alma irradia,
no azul buscando a liberdade respirar.
O longo pesadelo há de acabar um dia,
que francês não pressente este dia chegar?

Creio de tal maneira em tua arquipotência
que, apesar de sentir quão profunda é tua dor,
confio em tua insuperável resistência
e antevejo o que espera o brutal agressor.

Sim, porque, muito em breve, à face do universo
a gente que hoje sofre amarguras brutais
os ferros quebrarão, vencendo o Fado adverso
E farão respeitar os seus nobres ideias.

Reveremos, então, este povo Invencível,
povo de um rude orgulho, independente e forte,
cuja cólera justa explodirá terrível,
e que dos seus heróis há de vingar a morte.

Beatrix Reynal. Tradução de Bastos Tigre

Franceses, creio em vós!

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Franceses, creio em vós! E, malgrado a tormenta
que passa, a devastar, nosso amado país,
Do nosso ardente amor a flama me alimenta,
A flama que vos faz, mesmo o sangrar, viris.

Angústias de que sois as vítimas sublimes
Não puderam, jamais, vosso ânimo abater,
De expulsar o opressor, o réu de tantos crimes
Que fazem duvidar até do humano ser.

Um povo como o vosso à derrota resiste;
A obra das traições não lhe quebra o valor.
Ela ressurgirá, passad essa hora triste,
Punindo, sem mercê, cada infame traido.

Alçareis, novamente, a guerreira figura
— lá baixinho falais do momento da ação —
pois ó vosso apanágio a indomável bravura,
E que maldiz de vós não vos conheces não.

Não vos viu combater n tormenta incessante
de ferro, fogo e sangue, em lances de valor,
nem pesar sobre vós o momento cruciante
em que tudo já ruiu, mas resta o pundonor.

Ressurgirá de vós a luz do sol fecundo,
ó sofredora França, a doirar o porvir.
Breve refulgirás à vanguard do mundo
E aos homens mostrareis o caminho a seguir.

Beatrix Reynal. Tradução de Bastos Tigre.

Maternidade

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Eras, naquele dia, uma alma amargurada;
Vinham dos lábios teus palavras de rancor:
Dizendo o nome “Dele”, ofegante e magoada,
Contaste-me, a tremer, teus tormentos de amor.

Teu olhar irradiava uma raiva impotente;
Mas não choravas, não, teus perdidos ideais;
E, apesar de infeliz, que doçura dolente
Ao repetir, triste: — ele não volta mais!

Eu te olhava, e, depois, dizia-te, sincera,
Premindo em minhas mãos tua trêmula mão:
Por que o maldizer tu? espera ainda, espera;
Róseos dias, talvez, no porvir te virão.

No teu vestido negro o teu corpo tremia,
Eu buscava expressões graciosas e sutis
— Quanto em minha memória em repouso jazia
Num triste recordar de sonhos infantis.

Senti no coração desolada tristeza;
Com a mais funda emoção vi-te empalidecer
Dizendo, a suspirar, de infinda angústia presa:
— Vou, em breve, ser mãe… eu quisera morrer.

Então, subitamente, eu vi claro em minh’alma
E, não sei bem porque, tive imenso pavor.
Beijei-te como irmã que consola e que acalma.
Eras mulher e mãe — fonte de eterna dor.

Beatrix Reynal. Tradução de Bastos Tigre

Nos campos de Flandres

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Nestes campos de Flandres, como que por encanto,
por entre as longas filas de nossas sepulturas
as papoulas medraram; ao longe, nas alturas,
adejam cotovias, e as notas de seu canto
ecoam brandamente no imenso Campo Santo.

Todos os que tombamos, à Pátria dedicada.
Já não vemos o acaso, nem sorrimos à aurora:
em pleno sol ceifadas — como estamos agora!
Do amor todos sentimos o recanto e os mil cuidados,
E, como vós, amigos, também fomos amados!

De nossas mãos exaustas, destas mão maternais,
tomai a Tocha e erguei-a na vossa vestra triste…
Mas ah! Se desviardes da cruzada bendita,
Jamais terão sossego vossos restos mortais
Nesses campos fatídicos de papoulas letais!…

John Maccrae. Trad. Heitor P. Fróes.