Verlaine: três sonetos de “As amigas”

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À VARANDA

Juntas viam o debandar das rolas.
Uma é morena, e loira e rubicunda
a outra. Com núbias sécias, já circunda
uma serpente em torno às camisolas.

Sob o entorpecimento de papoulas,
Surgindo ao céu a lua alva e rotunda,
Elas provavam, com emoção profunda,
Nos seios a ressaca das marolas.

Com braços suados por cinturas suaves,
Um par alheio à compaixão das aves,
As moças deliravam na varanda…

Mas atrás, num recanto que deslumbra,
Melodramático cenário abranda
O perfumado leito à penumbra.

Tradução de Wagner Schadeck


SUR LE BALCON

Toutes deux regardaient s’enfuir les hirondelles ;
L’une pâle aux cheveux de jais, et l’autre blonde
Et rose, et leurs peignoirs légers de vieille blonde
Vaguement serpentaient, nuages, autour d’elles.

Et toutes deux, avec des langueurs d’asphodèles,
Tandis qu’au ciel montait la lune molle et ronde,
Savouraient à longs traits l’émotion profonde
Du soir, et le bonheur triste des cœurs fidèles.

Telles, leurs bras pressant, moites, leurs tailles souples,
Couple étrange qui prend pitié des autres couples,
Telles sur le balcon rêvaient les jeunes femmes.

Derrière elles, au fond du retrait riche et sombre,
Emphatique comme un trône de mélodrame,
Et plein d’odeurs, le lit défait s’ouvrait dans l’ombre.

Paul Verlaine, Les Amies.

PRIMAVERA

Menina ruiva e marota,
Bastante afeita à blandícia,
Sussurra à loira garota
Frases de entono e delícia:

“Seiva a urgir, flor em terra úmida —
Tua infância é pérgula, embora
Errem meus dedos pela úsnea
Onde o broto róseo aflora,

Deixa-me, no ramo ameno,
Sorver gotas de sereno
De sua flor umedecida,

Pra que a volúpia, querida,
Arda em teu semblante púbio
Como a aurora num céu núbio.”

Tradução de Wagner Schadeck


PRINTEMPS

Tendre, la jeune femme rousse,
Que tant d’innocence émoustille,
Dit à la blonde jeune fille
Ces mots, tout bas, d’une voix douce:

“Sève qui monte et fleur qui pousse,
Ton enfance est une charmille:
Laisse errer mes doigts dans la mousse
Où le bouton de rose brille,

“Laisse-moi, parmi l’herbe claire,
Boire les gouttes de rosée
Dont la fleur tendre est arrosée, –

“Afin que le plaisir, ma chère,
Illumine ton front candide
Comme l’aube l’azur timide.”

Paul Verlaine, Les Amies.

COLEGAS DE QUARTO

Uma quinze anos, a outra um ano mais adulta.
Em noite de dezembro, com abafado vento,
Ambas dormiam juntas num alojamento,
Frágeis, de olhos azuis, com rubores de fruta.

Despiram-se, na hora em que a vontade enseja,
As camisolas perfumadas de lavanda.
Ofegante, a mais moça um abraço demanda,
E sua amiga, com as mãos em seus seios, a beija.

Ela de joelhos cai, num desvario de louca;
põe-lhe entre as pernas a cabeça e, com sua boca
em nevoeiro cinza ao áureo louro, afunda…

E a menina durante o tempo de preguiça
Com dedos ágeis valsas promissoras piça
Abrindo num sorriso a face rubicunda.

Trad. Wagner Schadeck

PENSIONNAIRES

L’une avait quinze ans, l’autre en avait seize ;
Toutes deux dormaient dans la même chambre.
C’était par un soir très lourd de septembre
Frêles, des yeux bleus, des rougeurs de fraise.

Chacune a quitté, pour se mettre à l’aise,
La fine chemise au frais parfum d’ambre.
La plus jeune étend les bras, et se cambre,
Et sa soeur, les mains sur ses seins, la baise,

Puis tombe à genoux, puis devient farouche
Et tumultueuse et folle, et sa bouche
Plonge sous l’or blond, dans les ombres grises ;

Et l’enfant, pendant ce temps-là, recense
Sur ses doigts mignons des valses promises,
Et, rose, sourit avec innocence.

Paul Verlaine, Les Amies.

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Meu sonho de toda hora

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MEU SONHO DE TODA HORA

Eu sonho, quanta vez! o sonho surpreendente
De uma estranha mulher, que eu amo e que me adora,
E que nem sempre é igual, nem sempre é diferente,
Mas me entende; e por mim o amor a alma lhe enflora,

Compreende-me tão bem que sinto transparente
Para ela só meu coração, que desde essa hora
Não lhe esconde um segredo. E minha fronte ardente
Ela vem refrescar com as lágrimas que chora.

Se é loura ou se é morena, ai de mim! que o ignoro,
Seu nome? Escuto-o longe, encantado e sonoro,
Como os das outras que eu amara e me esqueceram.

Seu olhar lembra o olhar das estátuas sem vida,
E em sua vos calma, e grave, e remota, e perdida,
De amadas vozes voltam sons que emudeceram.

 

Paul Verlaine. Trad. Carlos Sá

A morte da bem-amada

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A MORTE DA BEM-AMADA

Ele tinha a noção geral e errada
de que a morte é inimiga sem entranha.
Ora, mas sucedeu que a bem-amada
cruzasse um dia essa fronteira estranha,

banhando em luar perene, pois a amada
sorrindo o guiava na fronteira estranha
— quanto mais longe menos afastada —
tomou-se duma placidez tamanha

que os mortos foi sentido irem ficando
— através dela — amigos seus, se não
parentes próximos… Então, deixando

em seu erro os incrédulos, chamou
esse lugar país da mansidão
e pelos pés da amada o decifrou.

Rainer Maria Rilke. Trad. José Geraldo Vieira

A Visitação de Maria

Visitazione“, de Domenico Ghirlandaio, 1491

A VISITAÇÃO DE MARIA

No princípio ainda lhe era leve,
mas subindo previa no imo
o alumbramento — e se deteve
a tomar fôlego no cimo

hebreu. À Terra Prometida
alheia; mas plena de Graça,
pensava que nada ultrapassa
essa magnitude sentida.

Urgia-lhe sentir com brando
toque um corpo que se avoluma.
Seus véus e vestes se afagando
eram como vagas de espuma.

Cada qual, um templo habitado,
o amparo de sua semelhante.
Cristo um rebento ainda fechado;
no ventre da prima, extasiado,
Batista vibrava exultante.

Rainer Maria Rilke
Tradução de Wagner Schadeck
Curitiba, 10/03/2018

***

MARIAE HEIMSUCHUNG

Noch erging leicht im Anbeginne,
doch im Steigen manchmal ward sie schon
ihres wunderbaren Leibes inne, –
und dann stand sie, atmend, auf den hohn

Judenbergen. Aber nicht das Land,
ihre Fülle war um sie gebreitet;
gehend fühlte sie: man überschreitet
nie die Größe, die sie jetzt empfand.

Und es drängte sie, die Hand zu legen
auf den andern Leib, der weiter war.
Und die Frauen schwankten sich entgegen
und berührten sich Gewand und Haar.

Jede, voll von ihrem Heiligtume,
schützte sich mit der Gevatterin.
Ach der Heiland in ihr war noch Blume,
doch den Täufer in dem Schoß der Muhme
riss die Freude schon zum Hüpfen hin.

Rainer Maria Rilke

 

Lamento

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(fragmento)

Os males sós não podem vir:
tudo o que me provera advir
é sucedido.
Aonde os amigos terão ido?
— eles que me foram queridos,
que eu tanto amara?
Eu creio que tudo se aclara.
O que é inconstante nunca pára,
e eles partiram.
Como a Deus, quando me traíram,
esses amigos me feriram
de ambos os lados.
Não vi nenhum vir ao meu lar.
É o vento, creio, a os dispersar:
finda-se o amar.
Amigos que vieram com o vento
à minha porta num momento
foram levados!

Rutebeuf (1230-1285)
Trad. Wagner Schadeck

Brisa Marinha

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(Versão dedicada a Wladimir Saldanha, grande tradutor de Mallarmé)

A carne é triste; e todo o livro me desgosta.
Fugir pra longe! Sinto as bêbadas gaivotas
Entre a amarga maré e a cerúlea centelha!
Nada, nem um vergel nas retinas me espelha,
Nem freme o peito que nas águas mergulhara!
Ó noites! Nem clarão de lamparina para
A alvura do papel que a vacuidade ostenta,
Tampouco a jovem mãe que o filhinho amamenta.
Eu partirei! A quilha a vibrar à ventura,
Içando a âncora por exótica natura!

É a Acídia, ao desolar com rudos desconcertos,
Passando-se no adeus dos lencinhos abertos!
O lenho muita vez com alvitre das voragens
Em meio ao vendaval sobrevive a naufrágios,
Sem velas, mastros, nem um insular recanto…
Mas ouve, coração, os marujos cantando!

Mallarmé. Versão de Wagner Schadeck