Diante de Jerusalém

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(Segunda versão)

E ora estão diante de Jerusalém.
Depõem de suas almas as paixões,
……….invejas e ganâncias,
……….todo o orgulho cortês.

Por ora, diante de Jerusalém.
……….Com êxtase e contrição,
esquecem-se das rusgas contra os gregos;
esquecem-se da raiva pelos turcos.

Por ora, diante de Jerusalém.
Os cruzados, intrépidos e invictos,
punjantes nos ataques e campanhas,
estão estupefatos e hesitantes;
não prosseguem; como crianças tremem,
como crianças choram: eles choram
ao ver os muros de Jerusalém.

Constantino Caváfis
(1888/1892)
Tradução de Wagner Schadeck

Esperança

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De te rever de pé conta nos tempos idos.
Ante o teu corpo em sangue os teus sonhos perdidos,
ponho o meu coração a vibrar, na esperança
de te ver de pé como nos tempos idos.

Entre as afrontas vis, a tua alma irradia,
no azul buscando a liberdade respirar.
O longo pesadelo há de acabar um dia,
que francês não pressente este dia chegar?

Creio de tal maneira em tua arquipotência
que, apesar de sentir quão profunda é tua dor,
confio em tua insuperável resistência
e antevejo o que espera o brutal agressor.

Sim, porque, muito em breve, à face do universo
a gente que hoje sofre amarguras brutais
os ferros quebrarão, vencendo o Fado adverso
E farão respeitar os seus nobres ideias.

Reveremos, então, este povo Invencível,
povo de um rude orgulho, independente e forte,
cuja cólera justa explodirá terrível,
e que dos seus heróis há de vingar a morte.

Beatrix Reynal. Tradução de Bastos Tigre

Franceses, creio em vós!

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Franceses, creio em vós! E, malgrado a tormenta
que passa, a devastar, nosso amado país,
Do nosso ardente amor a flama me alimenta,
A flama que vos faz, mesmo o sangrar, viris.

Angústias de que sois as vítimas sublimes
Não puderam, jamais, vosso ânimo abater,
De expulsar o opressor, o réu de tantos crimes
Que fazem duvidar até do humano ser.

Um povo como o vosso à derrota resiste;
A obra das traições não lhe quebra o valor.
Ela ressurgirá, passad essa hora triste,
Punindo, sem mercê, cada infame traido.

Alçareis, novamente, a guerreira figura
— lá baixinho falais do momento da ação —
pois ó vosso apanágio a indomável bravura,
E que maldiz de vós não vos conheces não.

Não vos viu combater n tormenta incessante
de ferro, fogo e sangue, em lances de valor,
nem pesar sobre vós o momento cruciante
em que tudo já ruiu, mas resta o pundonor.

Ressurgirá de vós a luz do sol fecundo,
ó sofredora França, a doirar o porvir.
Breve refulgirás à vanguard do mundo
E aos homens mostrareis o caminho a seguir.

Beatrix Reynal. Tradução de Bastos Tigre.

Maternidade

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Eras, naquele dia, uma alma amargurada;
Vinham dos lábios teus palavras de rancor:
Dizendo o nome “Dele”, ofegante e magoada,
Contaste-me, a tremer, teus tormentos de amor.

Teu olhar irradiava uma raiva impotente;
Mas não choravas, não, teus perdidos ideais;
E, apesar de infeliz, que doçura dolente
Ao repetir, triste: — ele não volta mais!

Eu te olhava, e, depois, dizia-te, sincera,
Premindo em minhas mãos tua trêmula mão:
Por que o maldizer tu? espera ainda, espera;
Róseos dias, talvez, no porvir te virão.

No teu vestido negro o teu corpo tremia,
Eu buscava expressões graciosas e sutis
— Quanto em minha memória em repouso jazia
Num triste recordar de sonhos infantis.

Senti no coração desolada tristeza;
Com a mais funda emoção vi-te empalidecer
Dizendo, a suspirar, de infinda angústia presa:
— Vou, em breve, ser mãe… eu quisera morrer.

Então, subitamente, eu vi claro em minh’alma
E, não sei bem porque, tive imenso pavor.
Beijei-te como irmã que consola e que acalma.
Eras mulher e mãe — fonte de eterna dor.

Beatrix Reynal. Tradução de Bastos Tigre

Nos campos de Flandres

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Nestes campos de Flandres, como que por encanto,
por entre as longas filas de nossas sepulturas
as papoulas medraram; ao longe, nas alturas,
adejam cotovias, e as notas de seu canto
ecoam brandamente no imenso Campo Santo.

Todos os que tombamos, à Pátria dedicada.
Já não vemos o acaso, nem sorrimos à aurora:
em pleno sol ceifadas — como estamos agora!
Do amor todos sentimos o recanto e os mil cuidados,
E, como vós, amigos, também fomos amados!

De nossas mãos exaustas, destas mão maternais,
tomai a Tocha e erguei-a na vossa vestra triste…
Mas ah! Se desviardes da cruzada bendita,
Jamais terão sossego vossos restos mortais
Nesses campos fatídicos de papoulas letais!…

John Maccrae. Trad. Heitor P. Fróes.