Brisa Marinha

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(Versão dedicada a Wladimir Saldanha, grande tradutor de Mallarmé)

A carne é triste; e todo o livro me desgosta.
Fugir pra longe! Sinto as bêbadas gaivotas
Entre a amarga maré e a cerúlea centelha!
Nada, nem um vergel nas retinas me espelha,
Nem freme o peito que nas águas mergulhara!
Ó noites! Nem clarão de lamparina para
A alvura do papel que a vacuidade ostenta,
Tampouco a jovem mãe que o filhinho amamenta.
Eu partirei! A quilha a vibrar à ventura,
Içando a âncora por exótica natura!

É a Acídia, ao desolar com rudos desconcertos,
Passando-se no adeus dos lencinhos abertos!
O lenho muita vez com alvitre das voragens
Em meio ao vendaval sobrevive a naufrágios,
Sem velas, mastros, nem um insular recanto…
Mas ouve, coração, os marujos cantando!

Mallarmé. Versão de Wagner Schadeck

 

Vídeo Brisa Marinha

 

 

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Do pó ao pó…

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ANDREAS GRYPHIUS
(1616-1664)

MENSCHLICHES ELENDE

Was sind wir Menschen doch! Ein Wohnhaus grimmer Schmerzen,
Ein Ball des falschen Glücks, ein Irrlicht dieser Zeit,
Ein Schauplatz herber Angst, besetzt mit scharfem Leid,
Ein bald verschmelzter Schnee und abgebrannte Kerzen.

Dies Leben fleucht davon wie ein Geschwätz und Scherzen.
Die vor uns abgelegt des schwachen Leibes Kleid
Und in das Toten-Buch der großen Sterblichkeit
Längst eingeschrieben sind, sind uns aus Sinn und Herzen.

Gleich wie ein eitel Traum leicht aus der Acht hinfällt
Und wie ein Strom verscheußt, den keine Macht aufhält,
So muß auch unser Nam, Lob, Ehr und Ruhm verschwinden.

Was itzund Athem holt, muß mit der Luft entfliehn,
Was nach uns kommen wird, wird uns ins Grab nachziehn.
Was sag ich? Wir vergehn wie Rauch von starken Winden.

 

MISÉRIA HUMANA

O que é o homem? Um lar pleno de dor,
A bolha de sabão da sorte, o breve
Fogo-fátuo, um teatro de temor,
A extinta vela, a desgelada neve.

Os que em vida ostentaram nobre porte,
Quando as carcaças foram desvestidas,
Guardados entre as páginas da morte,
São agora memórias esvaecidas.

Qual sonho que nos tenta e após se esvai,
Enchente que nenhum poder retrai,
Fama, honra, nome, é tudo cinza e agrura.

Perderá o ar quem tem agora alento,
Seguimos passo a passo à sepultura.
Passamos qual fumaça pelo vento.

Tradução de Wagner Schadeck

Dois sonetos de Marino

GIAMBATTISTA MARINO (1569 – 1625)
POESIAS RELIGIOSAS
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MISERIA DELLA VITA UMANA

Apre l’uomo infelice, allor che nasce
in questa vita di miserie piena,
pria ch’al Sol, gli occhi al pianto, e, nato a pena,
va prigionier fra le tenaci fasce.

Fanciullo, poi che non piú latte il pasce,
sotto rigida sferza i giorni mena;
indi, in etá piú ferma e piú serena,
tra Fortuna ed Amor more e rinasce.

Quante poscia sostien, tristo e mendíco,
fatiche e morti, infin che curvo e lasso
appoggia a debil legno il fianco antico?

Chiude alfin le sue spoglie angusto sasso,
ratto cosí, che sospirando io dico:
– Da la cuna a la tomba è un breve passo! –

MISÉRIA DA VIDA HUMANA

Logo que nasce, nesta vida plena
De miséria, o homem triste se confrange
De pranto, porque uma tenaz falange
À cadeia de dor cedo o condena.

Um dia, um rígido chicote range
À criança desmamada ainda pequena;
Tem a idade mais firme e mais serena,
Que o Fado, e o Amor, e a Vida, e a Morte abrange.

Quanta fé o mantém, cansado, aflito
E triste, ao caminhar arcado à custa
De débil lenho esteando o corpo lasso?

Oculta-lhe o espólio a pedra augusta,
Com o rapto feito. Ao lamentar, medito:
– Do berço à sepultura é um breve passo!

ALLA PROPRIA COSCIENZA

Verme immortal, che con secreto dente
i mordaci pensier sempre rimordi;
interno can, che de la pigra mente
con perpetuo latrar l’orecchie assordi;

sollecito avoltor, che avidamente
intendi a divorar gli affetti ingordi;
vespa sottil, ch’a stimulo pungente
susurro acuto entro ’l mio petto accordi;

lima, che rodi l’anima; martello,
che l’incude del cor batti sí spesso;
spina del peccator, sferza e flagello;

voce di Dio, che con parlar sommesso
mi sgridi e chiami; ahi! qual tentato è quello,
che non faccia di te freno a se stesso?

À CONSCIÊNCIA

Verme imortal, que com secreto dente
O pensamento atroz sempre o recorde;
Cão interior, em preguiçosa mente,
Com perpétuo ladrar a orelha morde;

Vulto solícito, que avidamente
Devora nosso afeto antes que engorde;
Vespa sutil, com estímulo pungente,
Fez-me no peito surdo e agudo acorde;

Lima, que a alma nos corrói; martelo,
A bater na bigorna do peito, a esmo;
Espinho ao pecador, fuste e flagelo;

Verbo Divino, este chamado fez-mo
Com firmeza, porém, tenta sabê-lo
Quem não fez freio algum para si mesmo?

Tradução de Wagner Schadeck

Súcubo

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LE SUCCUBE

Toute mie, onduleuse et le torse vibrant,
La fleur des lupanars, des tripots et des bouges
Bouclait nonchalamment ses jarretières rouges
Sur de très longs bas noirs d’un tissu transparent,

Quand soudain sa victime eut ce cri déchirant
‘Je suis dans un brouillard qui bourdonne et qui bouge
Mon oeil tourne et s’éteint! où donc es-tu, ma gouge ?
Viens ! tout mon corps tari te convoite en mourant !’

A ces mots, la sangsue exulta d’ironie :
‘Si tu veux jusqu’au bout, râler ton agonie,
Je t’engage, dit-elle, à ménager ta voix !’

Et froide, elle accueillit, raillant l’affreux martyre,
Ses suprêmes adieux par un geste narquois
Et son dernier hoquet par un éclat de rire.

Maurice Rollinat. Les Névroses.

O SÚCUBO

Toda nua, ondulosa e de torso vibrante,
Eis a flor dos bordéis, cassinos, botequins,
Que afivela indolente as ligas carmesins
Da meia-calça com tecido transparente.

Quando súbito a vítima grita dolente:
“Conturbo-me com o breu e a bruma dos confins!
Gira e apaga-me o olhar! Fadado pra que fins?
Vem! Meu corpo ansioso morre lentamente!”

Dito isto, a sanguessuga exulta de ironia:
“Se queres acabar, reclama a tua agonia,
Exorto-te, disse ela, a poupar a tua voz!”

Mas álgida, a acolher, do martírio ignorada,
Nesse supremo adeus com gesto vil e atroz,
Solta um último grito em larga gargalhada.

Tradução de Wagner Schadeck

Amor vespertino

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1,5

Com estio, após o meio-dia tépido,
deitei-me para descansar os membros.
De uma janela entrecerrada, a fúlgida
luz infiltrava-se como à das matas,
como ao fugir de Febo no crepúsculo,
ou no momento que antecede a aurora,
a luz que serve pra meninas tímidas
guardar a sua castidade intacta.
Eis vem Corina, envolta em veste lépida,
cabelo esparso em seu pescoço cândido;
era como Semíramis ao tálamo
ou qual Laís, que fora muito amada.
Puxei-lhe a túnica que de tão tênue
certo não lhe resistiria a pugna.
E embora ela lutasse pra vencer,
traiu-se ao se entregar como vencida.
E quando ante meus olhos ficou nua,
Não havia em seu corpo uma só mácula.
Que braços contemplei! Toquei que espáduas!
Que pomas suculentas de espremer!
Sob o peito, que ventre liso e esbelto!
Que belas coxas! Que cintura esplêndida!
Por que detalhes? Nada há que se louve
Senão seu corpo nu junto ao meu corpo.
Sabe-se o resto! Exaustos, descansamos.
Que me provenham mais tardes como esta!
.
P. Ovídio Nasão. Os amores. Tradução de Wagner Schadeck

Um epitáfio desenterrado da Arcádia

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ÉCLOGA V – EXCERTO
PÚBLIO VERGÍLIO MARO (39 – 38 A.C.)

Precedida por um diálogo entre dois pastores, Mopso e Menalca, os quais discutem sobre a morte de Dáfnis, o mítico jovem finado pastor e poeta, na bucólica V, Virgílio compõe um epitáfio pastoril, como um quadro pagão, demarcando, a um só tempo, a bela morte juvenil e o retorno do homem à natureza, algo que será reproduzido conceitualmente na morte de Werther de Goethe, no soneto “Le dormeur du val”, de Rimbaud, em Os Sertões de Euclides da Cunha…
Nas artes plásticas, essa cena virgiliana será reproduzida, ganhando tonalidades crepusculares. A partir das produções pictóricas de Guercino (1591 – 1666) e Poussin (1594 – 1665), o nome “Et in Arcadia Ego”, como essa cena passou a ser chamada, torna-se interpretação da morte, em vez do simples retorno pagão para a Arcádia. Segundo Panofsky, de um”eu” individual, o “ego” passará a ser interpretado como o “demônio”.

[ET IN ARCADIA EGO]

«Exstinetum Nymphae crudeli funere Daphnin
flebant (vos, coryli, testes, et flumina, Nymphis),
cum, complexa sui corpus miserabile nati,
atque deos atque astra vocat crudelia mater.
Non ulli pastos illis egere diebus
frigida, Daphni, boves ad flumina; nulla neque amnem
libavit quadrupes, nec graminis attigit herbam.
Daphni, tuum Poenos etiam ingemuisse leones
interitum montesque feri silvaeque loquuntur.
Daphnis et Armenias curru subiungere tigres
instituit, Daphnis thiasos inducere Bacchi,
et foliis lentas intexere mollibus hastas.
Vitis ut arboribus decori est, ut vitibus uvae,
ut gregibus tauri, segetes ut pinguibus arvis,
tu decus omne tuis. Postquam te fata tulerunt,
ipsa Pales agros, atque ipse reliquit Apollo.
Grandia saepe quibus mandavimus hordea sulcis
infelix lolium et steriles nascuntur avenae;
pro molli viola, pro purpureo narcisso,
carduus et spinis surgit paliurus acutis.
Spargite humum foliis, inducite fontibus umbras,
pastores; mandat fieri sibi talia Daphnis;
et tumulum facite, et tumulo superaddite carmen;
DAPHNIS EGO IN SILVIS, HINC USQUE AD SIDERA NOTUS,
FORMOSI PECORIS CUSTOS FORMOSIOR IPSE».

[E NA ARCÁDIA, EU]

“As Ninfas choram a cruel morte de Dáfnis,
(sois testemunhas, córregos e avelaneiras)
Quando, embalando o mísero corpo do filho,
a mãe clamava à compaixão de astros e deuses.
Ninguém apascentou os bois nos rios frescos
Naquele dia, Dáfnis; nenhum animal
Ruminou relva, nem se refrescou nas águas.
A floresta anuncia que leões e montes
Têm lamentado a tua horrível morte, Dáfnis.
Além do tigre armênio encilhado à carroça,
Dáfnis nos ensinou a entretecer os tirsos
Com folhagens, dançando os tíasos de Baco.
A vide adorna a árvore, a uva a videira,
Os touros a manada, a messe os pingues bosques,
Tudo encantavas. Quando o Fado te raptou,
Palas e Apolo abandonaram nossos campos.
Nós semeamos grãos, mas nasceram arbustos,
A cizânia nefasta e a aveia venenosa;
Em vez da violeta e do narciso púrpura,
Brotaram cardos e o espinhento paliúro.
Na terra espalhai folhas; e dai sombras às fontes,
Pastores, Dáfnis pois prezava esta homenagem
– Lavrai túmulo, colocando-lhe a inscrição:
EU SOU DÁFNIS, FAMOSO DA FLORESTA AOS CÉUS,
DE UMA BELA BOIADA O MAIS BELO PASTOR.”

Tradução de Wagner Schadeck

Nietzsche, poeta

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“Nietzsche é, antes de tudo, um grande poeta; um poeta neorromântico. Suas poesias líricas são poucas, mas de beleza e intensidade incomparáveis: Herbst (Outono), Mein Glueck (Minha Felicidade), Vereinsamt (Solidão), Venedig (Veneza), os epigramas, Das trunkene Lied (A Canção Ébria), Ecce homo. Curtos poemas em prosa são muitos de seus aforismos magistrais. O grande poeta é também prosador de primeira linha. Mas é necessário, para saber disso, proceder a uma revisão de valores.” — Otto Maria Carpeaux. História concisa da literatura alemã.

Vereinsamt

Die Krähen schrein
Und ziehen schwirren Flugs zur Stadt:
Bald wird es schnein. –
Wohl dem, der jetzt noch Heimat hat!

Nun stehst du starr,
Schaust rückwärts, ach! wie lange schon!
Was bist Du Narr
Vor Winters in die Welt entflohn?

Die Welt – ein Tor
Zu tausend Wüsten stumm und kalt!
Wer das verlor,
Was du verlorst, macht nirgends halt.

Nun stehst du bleich,
Zur Winter-Wanderschaft verflucht,
Dem Rauche gleich,
Der stets nach kältern Himmeln sucht.

Flieg, Vogel, schnarr
Dein Lied im Wüstenvogel-Ton! –
Versteck, du Narr,
Dein blutend Herz in Eis und Hohn!

Die Krähen schrein
Und ziehen schwirren Flugs zur Stadt:
Bald wird es schnein. –
Weh dem, der keine Heimat hat.

 

Solidão

Vão corvos crocitando
Para a cidade em voo circular:
Logo estará nevando –
E bem-aventurado quem tem lar!

Altivo, olhando outrora
Teu passado não volta num segundo!
Quem és – um louco que ora
Antes do inverno fugirá do mundo?

O mundo – uma saída
Aberta para um ermo horrendo e agreste.
Não pode achar guarida
Aquele que perdera o que perdeste.

Com palor de desgraça,
A viagem hibernal tens desdenhado,
Semelhante à fumaça
Evolando para o orbe regelado.

Entoa, ave, teu canto
De pássaro no seu errante anelo! –
Louco, escondes, no entanto,
Teu coração sangrando em pasmo e gelo.

Vão corvos crocitando
Para a cidade em voo circular:
Logo estará nevando –
E bem-aventurado quem tem lar!

Tradução de Wagner Schadeck