Richepin e Vicente Celestino

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CANÇÃO DE MARIA DOS ANJOS

Era uma vez um bom rapaz,
E tra la li,
E tra la la,
Era uma vez um bom rapaz
Que amou quem não o amou jamais.

Ela diz: Dá-me o coração
E tra la li,
E tra la la,
Ela diz: Dá-me o coração
De tua mãe para o meu cão.

Ele procura a mãe e mata-a,
E tra la li,
E tra la la,
Ele procura a mãe e mata-a,
E o seu coração lhe arrebata.

E, quando vem correndo, cai,
E tra la li,
E tra la la,
E, quando vem correndo, cai,
E o coração por terra vai.

E enquanto vai, vai a rolar,
E tra la li,
E tra la la,
E enquanto vai, vai a rolar,
O coração põe-se a falar.

E o coração lhe diz baixinho,
E tra la li,
E tra la la,
E o coração lhe diz baixinho:
Tu te magoaste, meu filhinho?

Jean Richepin. Tradução de Guilherme de Almeida

 
LA CHANSON DE MARIE DES ANGES

Y avait un’fois un pauv’gas,
Et lon la laire,
Et lon lan la,
Y avait un’fois un pauv’gas,
Qu’aimait cell’qui n’l’aimait pas.

Elle lui dit : Apport’moi d’main
Et lon la laire,
Et lon lan la,
Elle lui dit : Apport’moi d’main
L’cœur de ta mèr’ pour mon chien.

Va chez sa mère et la tue
Et lon la laire,
Et lon lan la,
Va chez sa mère et la tue,
Lui prit l’cœur et s’en courut.

Comme il courait, il tomba,
Et lon la laire,
Et lon lan la,
Comme il courait, il tomba,
Et par terre l’cœur roula.

Et pendant que l’cœur roulait,
Et lon la laire,
Et lon lan la,
Et pendant que l’cœur roulait,
Entendit l’cœur qui parlait.

Et l’cœur lui dit en pleurant,
Et lon la laire,
Et lon lan la,
Et l’cœur lui dit en pleurant :
T’es-tu fait mal mon enfant ?

Jean Richepin

CORAÇÃO MATERNO

Disse um campônio à sua amada: “Minha idolatrada, diga o que quer
Por ti vou matar, vou roubar, embora tristezas me causes mulher
Provar quero eu que te quero, venero teus olhos, teu corpo, e teu ser
Mas diga, tua ordem espero, por ti não importa matar ou morrer”

E ela disse ao campônio, a brincar: “Se é verdade tua louca paixão
Parte já e pra mim vá buscar de tua mãe inteiro o coração”
E a correr o campônio partiu, como um raio na estrada sumiu
E sua amada qual louca ficou, a chorar na estrada tombou

Chega à choupana o campônio
Encontra a mãezinha ajoelhada a rezar
Rasga-lhe o peito o demônio
Tombando a velhinha aos pés do altar

Tira do peito sangrando da velha mãezinha o pobre coração
E volta à correr proclamando: “Vitória, vitória, tens minha paixão”
Mas em meio da estrada caiu, e na queda uma perna partiu
E à distância saltou-lhe da mão sobre a terra o pobre coração

Nesse instante uma voz ecoou: “Magoou-se, pobre filho meu?
Vem buscar-me filho, aqui estou, vem buscar-me que ainda sou teu!

Vicente Celestino

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Soneto de Anvers

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Segredo d′alma, da existência arcano,
Eterno amor num instante concebido,
Mal sem esperança, oculto a ente humano,
E nunca de quem fê-lo conhecido.

Ai! Perto dela desapercebido
Sempre a seu lado, e só, cruel engano,
Na terra gastarei meu ser insano
Nada ousando pedir e havendo tido!

Se Deus a fez tão doce e carinhosa,
Contudo anda inatenta e descuidosa
Do murmúrio de amor que a tem seguido.

Piamente ao cru dever sempre fiel
Dirá lendo a poesia, seu painel:
“Que mulher é?” Sem tê-lo compreendido.

Félix Anvers. Tradução de D. Pedro II.

O Beija-flor

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O verde beija-flor, rei das colinas,
Vendo o rocio e o sol brilhante
Luzir no ninho, trança d′ervas finas,
Qual fresco raio vai-se pelo ar distante.

Rápido voa ao manancial vizinho,
Onde os bambus sussurram como o mar,
Onde o açoká rubro, em cheiros de carinho,
Abre, e eis no peito úmido a fuzilar.

Desce sobre a áurea flor a repousar,
E em rósea taça amor a inebriar,
E morre não sabendo se a pode esgotar!

Em teus lábios tão puros, minha amada,
Tal minha alma quisera terminar,
Só do primeiro beijo perfumada!

Leconte de Lisle. Tradução de D. Pedro II.

A cota de malha

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– Filha, eu vou para a batalha;
No céu atina a má estrela:
Quero uma cota de malha
De tuas mãos de donzela.

– Pai, estarias seguro
Pelas mãos de uma mocinha?
Não sei forjar ferro duro;
Só entendo de agulha e linha.

– À noite, oferte o tecido
Ao Inferno! E com arremate,
Eu estarei protegido
Nesse cruento combate.

Lua-cheia em noite santa,
E sozinha ela urde a trama:
– Invoco o Inferno! E se espanta:
O fuso gira e se inflama.

Quando ela retira a linha
Daquele tear terrível,
Ele torna e redemoinha
Como por mão invisível.

Tão logo a armada se arranca,
O duque salta à vanguarda:
Sob a sua heráldica branca,
A cota de malha guarda.

Dele o inimigo se afasta;
Contra ele ninguém avança.
Despedaçando toda a hasta,
Quebra seta, sabre e lança.

E um infante o atalha no ato:
– Pára, homem sanguinolento!
De nada vale teu pacto:
É desfeito o encantamento.

A refrega os incendeia.
Eis rasgada e tinta a cota…
E ambos rolam pela areia,
Amaldiçoando a derrota…

A filha invade o sangrento
Campo. – Onde, o Duque? E depois,
Reconhece com lamento
A pugna horrenda dos dois.

– Minha filha, tu forjaste
A cota como as demais?
O Inferno não invocaste,
Ou não tens mãos virginais?

– Invoquei o Inferno, mas
A mão que teceu tua malha
Pertencera a esse rapaz…
Pai, eu teci tua mortalha!

 

L. Uhland. Tradução de Wagner Schadeck

Ode I, 5. (A Pirra)

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Numa gruta, entre muitas rosas,
quem é o menino magro,
odorizado por perfumes líquidos,
a te oprimir o peito, Pirra?

Para quem tranças os cabelos loiros?
Com instáveis deuses, assustado
pela tormenta e as águas negras,
logo ele perderá toda a confiança.

Crédulo, investindo em teu ouro,
te espera livre sempre, sempre amável,
por ignorar teu ar de falsidade…
Pobre de quem dá crédito

ao teu brilho! Num templo,
em parede votiva,
eu pendurei as roupas úmidas
ao deus, senhor do mar.

 

Q. F. Horácio. Versão de Wagner Schadeck

Diante de Jerusalém

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(Segunda versão)

E ora estão diante de Jerusalém.
Depõem de suas almas as paixões,
……….invejas e ganâncias,
……….todo o orgulho cortês.

Por ora, diante de Jerusalém.
……….Com êxtase e contrição,
esquecem-se das rusgas contra os gregos;
esquecem-se da raiva pelos turcos.

Por ora, diante de Jerusalém.
Os cruzados, intrépidos e invictos,
punjantes nos ataques e campanhas,
estão estupefatos e hesitantes;
não prosseguem; como crianças tremem,
como crianças choram: eles choram
ao ver os muros de Jerusalém.

Constantino Caváfis
(1888/1892)
Tradução de Wagner Schadeck

Esperança

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De te rever de pé conta nos tempos idos.
Ante o teu corpo em sangue os teus sonhos perdidos,
ponho o meu coração a vibrar, na esperança
de te ver de pé como nos tempos idos.

Entre as afrontas vis, a tua alma irradia,
no azul buscando a liberdade respirar.
O longo pesadelo há de acabar um dia,
que francês não pressente este dia chegar?

Creio de tal maneira em tua arquipotência
que, apesar de sentir quão profunda é tua dor,
confio em tua insuperável resistência
e antevejo o que espera o brutal agressor.

Sim, porque, muito em breve, à face do universo
a gente que hoje sofre amarguras brutais
os ferros quebrarão, vencendo o Fado adverso
E farão respeitar os seus nobres ideias.

Reveremos, então, este povo Invencível,
povo de um rude orgulho, independente e forte,
cuja cólera justa explodirá terrível,
e que dos seus heróis há de vingar a morte.

Beatrix Reynal. Tradução de Bastos Tigre