Encontro das águas

 

Por Wagner Schadeck

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1.
Como duas águas distintas que se encontram, a melancolia e o sarcasmo poucas vezes desembocaram em uma mesma leitura. É uma alquimia singularíssima, alcançada no Quixote de Cervantes e no Quincas Borba de Machado de Assis. Na poesia é ouro negro igualmente raro. Talvez só mesmo do quilate da requintada sátira de si mesmo de Heine e da melancolia sutil de Bandeira. Mas estes mestres sabiam a enorme dificuldade da mistura. Ao contato com a pedra do sarcasmo, o vinho espesso da bílis negra torna-se ácido. E como nos lembra Machado de Assis, a depender do temperamento do leitor, esse elixir pode fazer rir ou chorar…
O leitor poderá sorver vestígios dessa solução na poesia de Wladmir Saldanha.
No livro Culpe o Vento, poemas como A caminho de casa, onde desmascara a nossa mesquinharia cotidiana, No ponto. Sob a marquise, ou O assinalado, onde se fundem o sinal da vigilância sanitária ao estigma de doença, e Diagnóstico para o velho político, onde ironiza a proliferação de heráldicos monumentos aos infaustos, ou ainda em Poema feito de queda, onde prova seu engenho alegorizando “a dor universal”, como diria Augusto dos Anjos, num corriqueiro guidão de bicicleta, culminando no belo conjunto “As mortes ensolaradas (intermezzo elegíaco)”, conjunto de poemas que por vezes tocam o humor negro, Saldanha nos brinda com essa forte mistura.

CEMITÉRIOS DE SALVADOR

… em qualquer cemitério de Salvador,
O cortejo segue cantando,
E batendo papo, e atendendo a telefonemas…

(p. 96)

É a perplexidade do poeta diante dos absurdos cotidianos. Em outros momentos, ainda refletindo sobre a iniludível, o poeta baiano consegue concentrar o efeito no último verso, como em:

SUA HORA

Aquele despedir-se
Deixava-os constrangidos:

Queriam consolar,
Consolo na minava;
Queriam dizer graça,
Língua se engrolava;
Pediam – se calasse!

[…]

E resignado

Vestiu camisolão.
Sorriu para a mulher,
Pediu beijasse a neta,

Deixou-se abrir o ventre,
Deixou-se após fechar,
Cônscio que era em vão.

(p. 107)

Essa inabilidade verdadeiramente humana para lidar com a morte prossegue no belo poema Não exatamente por quem morreu:

Choramos por nós mesmos, pelo resto
De nós, pelo amor e criação;
Pelo resto humílimo de nós
E que vai ser lembrança, lembra? Pó.

(p. 109)

Mas essa tônica (ou tônico acérrimo?) aparece menos em outros poemas, sobretudo nos encômios a Augusto dos Anjos, Bruno Tolentino, Mário de Andrade, Cabral, Borges e Cecília Meireles. Convém destacar, contudo, a presença de Verlaine, não somente com traduções, mas como afinidade lírica, quase diríamos índole de engenho.
Otto Maria Carpeaux ligava o poeta francês ao também marginal, genioso e genial Villon. A despeito das idiossincrasias de ambos, o que os aproxima é o talento de poetar até o precário. É o que podemos notar também em Wladimir Saldanha. Como na reconstrução mítica do encontro de Cecília Meireles e Fernando Pessoa, que, segundo este, não houve por motivos obscuros.
No poema Mesa para quatro, Saldanha brinca com a cena do desencontro dos mares, emulando posturas dos heterônimos e ironizando que o genial poeta português que ficara “plantado” na Chiado.
Já no livro Lume Cardume Chama, título retirado de Hilda Hilst, obra de maior mestria em conjunto, embora com aquele efeito de sarcasmo e melancolia já mais brando, por vezes dissipado, o poeta canta sua aldeia para cantar o mundo: da urbe ao orbe, como dizia Ovídio. Os motivos marítimos e pesqueiros reaparecem tecidos com as memórias em belas alegorias do labor poético, como em O cascalho, Concha alheia, Nós. Além disso, destacamos o poema narrativo A pesca e o silêncio, a evocar Drummond e Guimarães Rosa, e o A Pesca da Sereia, que evoca algo entre A taça, de Schiller, e A sereia de Lenau, de Bandeira, também inspirado, segundo nota, no quadro homônimo de Carlos Bastos.

Um peso grande na rede
Mostrou depois o quadril
Cabelos longos molhados
E lívida face cansada.

Os negros não se assustaram,
Puxaram apenas a moça.

Em grego antigo falava,
Encantados ouviam os negros.
Não bem que não a entendesse,
Mas tomavam aquilo por canto.

E muito intimamente
Perguntaram por suas asas.
“Eu as perdi” – explicou
A moça, na língua estranha.

Depois disso, um deles quis
Devolver a moça ao mar;
Outro foi de acordo,
O terceiro não concordou:
Queria levá-la consigo,
A sereia, qual pescaria,
Para mostrá-la na Ilha,
E bater fotografia.

Então discutiram muito
– e enquanto muito falavam,
A moça fez um coleio,
Lançou-se de volta ao mar.

O homem que a quis para si,
Catando ligeiro um arpão,
Pulou atrás em seguida.
E antes muito de voltarem,
Os amigos, para a Ilha,

Voltou ele, o homem-peixe,
Com peixes mordendo a virilha.

(pp. 59, 60)

2.
Solução diversa desta encontramos nas águas percorridas por Adalberto de Queiroz, em Destino Palavra. Para ele, o mar é a alegoria, tanto do labor poético, quanto do encontro com a tradição. A poesia é visita. Adalberto frequenta as ilhas de Jorge de Lima, Augusto Meyer, Whitman, Rimbaud, Baudelaire, Tasso da Silveira, Gerardo Melo Mourão, Alberto da Cunha Melo, entre outros.
O projeto gráfico do livro, por Mário Zeidler Filho, parece indicar também uma inusitada visitação da poesia, o que faz com que o peregrino da memória, ao aportar em Cádis, ou desembarcar em Goiânia, terra natal do poeta, inscreva, entre os carimbos e estampas dos postais, a poesia de passagem, ou como queria Goethe, ao avaliar sua obra de vida, a poesia de circunstância.
Nesse périplo poético e cosmopolita, a metapoesia também aparece em poemas como Fugitiva, Entre palavras (2) ou Água Limpa (II), evocando Hipocrene, fundada pela pegada de Pégaso, a fonte dos poetas:

Se da água limpa dos rios
O poeta alcança – incólume
As fontes de água-viva…
Oh claro lume: dela bebe.
(p. 32)

Ou ainda em Guia, onde o motivo marítimo, não como evasão à Citera simbolista, mas como símile do devaneio,  desemboca em devoção:

A minha solidão, desperta-me, convocando
A um retiro longo e silente –
No mar Cáspio, diante do imaginário.

(p. 33)

Há também o encômio, como no soneto a Ivan Junqueira:

TEMOR AO GRIFO

Dizer o quê – do posto em que me vejo?
– Todo o dia ler um pouco e estar a postos.
Não é o rio da minha aldeia nenhum Tejo.
Restam-me esses parcos versos compostos.

Digo do ponto de vista em que me vejo:
Ler e reler o mesmo livro, au rez-de-chaussée
‘Vehemenitus et pronfundius’ – é meu desejo.
Confissão de leitor, há muito um démodé.

Ler e reler o mesmo livro de alto a baixo,
Antes de o véu noturno cobrir-me o rosto
De solidão e medo qual a ciência amarga.

Seguir incólume à fera que nas dobras do livro
A poesia abafa; ah, sede que o Grifo encolhido,
Ameaça, sobranceiro, o que vai sedento ao poço.

(p. 17)

Convém destacar outras referências como Balada ao homem do mar, e o grande momento da poesia de Queiroz, com Oh, navios à barra atados:

Oh, navios à barra atados
Que nesta quadra cativos
Eu fui de vosso cansaço
O vigia e o fiel soldado –
Vendo-os, aí atracados…

Sua calma presença
À minh’alma amansa;
Em vós, enfim, descansam
Quase todas minhas penas.

És da minha janela
Única a paisagem
Que pássaro alado
Ambiciona tê-la –
Neste mar à vista
Desde o beiral usado
Perdoai-me o canto
Triste ora entoado…

Navios, à barra esquecidos,
Impossível o cenário equóreo
No cerrado onde vivo –
Daí, o cambiar o cenário.

Eis-me à janela debruçado
A admirar-vos, deitar ferros
No jade imenso: ancorado
Também o bardo aborrecido
Exausto do mundo alhures…

Fundear a alma deseja
Quem à janela gruda a face
Sobre os rios que vêm e vão
Ou sobre a porosidade marinha.

Eis-nos, naves: o espaço e o corrosivo
Da memória, da clave fundante.
Passageiros que somos, ó naves
Imbicadas no jade; nosso destino:
Igualzinho ao das folhas do cedro
Ou do baobá – finitas e desejosas,
Se atracadas, se o espaço singrar.

(pp. 39, 40)

Não é aquela mesma poção de humour de Saldanha; é uma melancolia de viagem, algo que o poeta resolverá com a ascensão religiosa, evocando com poetas como Tasso da Silveira e Augusto Frederico Schmidt, de quem coligira breve antologia.

Fazei-nos, pois, Senhor, aprendizes dos mistérios da alma.

(de Prece, p. 65)

Ou poemas como Por vezes penso em Ti

Do Cordeiro ao homem unindo,
A dor ata Deus a criatura decaída.

(p. 23)

3.
Assim como o desencontro de Cecília Meireles e Fernando Pessoa, promovido pelo zodíaco, foi recompensado pelo Mar, o porto de encontro de Wladimir Saldanha e Adalberto de Queiroz é Manuel Bandeira. Lugar de encontro entre a melancolia e o sarcasmo, cada poeta apresentará a poesia de consultório a seu modo.
No poeta goiano:

A DOR (2)
(Ou: poeta vai ao consultório)

O médico, prático, não sabe que ao poeta
Na sala de espera o aguarda a doida da casa.
Uma senhora chamada imaginação, então,
Ele procede à anamnese: onde dói, meu filho?

O doutor apalpa o peito do poeta que lamenta:

– Não sei, amiúde, onde é a dor,
Doutor, se coração ou no molar?
Sei que dóis aflito o peito
Feito um pássaro sem ar.
É dor indescritível em poema
Não sei se o estetoscópio sente.
O corpo sim, é a presa da dor
Se do prazer um tanto ausente.

Culpa eu tenho, doutor, dessa dor
Que é a dor minha e de toda a gente;
Se o corpo a esconde no calor,
Ela retorna na solidão do ausente.

(p. 65)

No poeta baiano:

NUVENS, RAÍZES. FLORES

§
“Para o médico é muito evivente, mas para o leigo talvez não:
A pneumonia não é ali – ali é o coração
A pneumonia são essas manchas brancas
Essas nuvens – está vendo? Essas nuvens brancas
Aqui, como umas raízes”
– olhei: havia na chapa, de fato,

Uma noite nebulosa que era também uma ar-
vore revirada.

[…]

§

[…]
Foi no dia de alta. Consta que ainda houvesse
Alguma radícula, ou cirro, em meu pulmão:
“A verdade clínica é sempre mais rápida que a radiográfica”
– ainda ouvi. Mas calei sobre as flores.

[…]

(pp. 131, 132)

Embora a cena do consultório, consagrada pelo poema agridoce Pneumotórax, de Manuel Bandeira, seja a referência de ambos, enquanto a poesia de Saldanha é mais acre, a melancolia discreta é a tonalidade em Queiroz. É o temperamento lírico de cada um deles. A poesia de Destino Palavra é cosmopolita, ainda que possamos sentir fortemente a presença de Lisboa, quando evocada, em Culpe o Vento. Wladimir Saldanha é um poeta trabalhando; Adalberto de Queiroz, um poeta em férias, sem demérito algum.
Por outro lado, como já apresentamos, as poesias de ambos se encontram na evocação à tradição lírica, na memória afetiva e no uso de várias formas, de sonetos ao verso livre, sem abandonar totalmente o efeito musical das rimas. Machado de Assis já reforçara essa nossa predileção poética. Em sua famosa crítica A nova geração, evocando a crítica de Samuel Johnson sobre o verso branco de Milton, o ensaísta reconhecera como característica da poesia brasileira a maior popularidade da lira musical de Gonzaga em relação à pictórica de Basílio da Gama. Mas mais do que reafirmar essa tendência, Adalberto traz para sua aldeia o canto das ilhas estrangeiras; Wladimir canta a sua aldeia como a ilhas alheias.

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