O rosto de Beatriz

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A conceitualização mais precisa de poesia talvez só a tenha isolado ou exotizado. Muitos poetas já empreenderam isso; nenhum sem alguma hesitação. Talvez, antes de mais uma tentativa, devêssemos também recorrer a uma tautologia: não há poesia sem o Homem; nem o Homem sem poesia. Sem que uma premissa explique a outra, a verdade é que elas dão conta apenas de parte da poesia. Essa parte diz respeito àquilo que os gregos chamavam de poiesis, que seria o fazer, a técnica ou a arte. Na antiguidade, assim como o vinho, a poesia era considerada um presente dos deuses. Vinho e poesia eram elementos essenciais da sociedade. O vinho trazia o esquecimento; a poesia a memória.

Quando indagados sobre o que é a poesia, os poetas costumam dar respostas esquivas. O filósofo e poeta francês Paul Valéry dizia a poesia é a “hesitação entre o som e o sentido”. Cientista, filósofo e poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe dizia a poesia é o “falar inefável”. Essas respostas não são propriamente definições. A fórmula da água é uma definição. Por outro lado, não são também conceitualizações. Quando no Simpósio, Platão propõe um diálogo com várias visões sobre o Amor, ele está elaborando um conceito. E embora ao fim recorra ao mito como portador da Verdade inefável, o filósofo procura extrair um conhecimento do Amor, não transmitir a sensação que este lhe proporciona.

Estudando a poética, foi essa mesma percepção da natureza da poesia que levou o poeta e crítico mexicano Octavio Paz a afirmar que nos poemas existe uma lógica diversa, por meio da qual “a pluralidade do real” é manifesta ou expressa. Na poesia “as plumas são pedras, sem deixar de ser plumas.”[1]. Ou seja, a poesia não pode ser definida cientificamente porque extrapola os limites dos métodos. Além disso, a linguagem poética é infensa à científica e à política (ideológica). Quando Goethe dizia que a poesia fala o que não pode ser falado, ele expressa uma sensação experimentada ou imaginada. Há na poesia um saber (ou sabor) sensitivo da realidade profunda.

O filósofo e romancista italiano Giovanni Boccaccio dizia que o poeta Dante Alighieri, enquanto compunha sua obra-prima, tinha a fisionomia de quem realmente desceu ao inferno. E embora a Divina comédia seja uma obra do intelecto, críticos, como Erich Auerbach e Otto Maria Carpeaux, identificam aspectos da realidade do poeta retratados no Inferno. No coro de anjos do Paraíso seria possível então ouvir o canto gregoriano das catedrais europeias.

Experiências profundas
Logo parece sensato dizer que num primeiro momento a poesia envolve a experiência profunda, exterior (o universo) e interior (memória, imaginação). No livro A leitora Clarice Lispector, Clarice Lispector traduz uma de suas citações favoritas de Henry James que ilustra bem isso. Para o escritor norte-americano naturalizado britânico: “A experiência nunca é limitada e nunca é completa; ela é uma imensa sensibilidade…”[2].

Provavelmente muitos de nós já tenhamos tido experiências profundas de “imensa sensibilidade”. Entretanto, o poeta faz dessas experiências “um monumento mais duradouro que o bronze”, como dizia o poeta latino Horácio (Quintus Horatius Flaccus, 65 a.C.- 8 a.C.), na Ode III, 30.

Num de seus poemas de circunstância, Goethe apresenta perfeitamente isto:

Gefunden
Ich ging im Walde
So für mich hin,
Und nichts zu suchen,
Das war mein Sinn.

Im Schatten sah ich
Ein Blümchen stehn,
Wie Sterne leuchtend,
Wie Äuglein schön.

Ich wollt es brechen,
Da sagt es fein:
Soll ich zum Welken
Gebrochen sein?

Ich grub’s mit allen
Den Würzlein aus.
Zum Garten trug ich’s
Am hübschen Haus.

Und pflanzt es wieder
Am stillen Ort;
Nun zweigt es immer
Und blüht so fort.
Johann Wolfgang von Goethe, 1813

Achado
Fui à floresta,
Em si volvido.
Na distração
Tive sentido.

No escuro eu vi
Uma flor bela,
Como olhos ternos,
Como uma estrela.

Eu fui quebrá-la;
Pôs-se a falar:
“Se eu for quebrada,
Não vou murchar?”

Rente às raízes
Fundo cavei,
E ao meu jardim
A transplantei.

Em lugar calmo
Pus a flor linda;
Sempre há um renovo,
Floresce ainda.
Tradução: Wagner Schadeck

Encontro
Este poema goetheano pode ser entendido como uma alegoria da experiência profunda e poética. Nele o poeta encontra o sentido (razão/caminho), enquanto se extravia. É uma espécie de “interesse desinteressado”, como diria Kant, mas mais propriamente uma contemplação amorosa. Não é o poeta quem encontra a poesia; é encontrado por ela. Há uma sombra velando essa flor. O acontecimento da beleza é uma experiência inefável para ele. A típica imagem do apaixonado que despetala a flor para sortear seu amor recebe um sopro real. A flor adverte o poeta. A paixão de desfolhar a flor (quebrar, desgalhar) leva a beleza à morte. Numa atitude amorosa, o poeta então cava fundo, colhendo-a com raízes e a transplantando para seu jardim (a memória). Depois, em lugar ameno (num poema) ela continuará florescendo. A poesia é um ato de amor que preserva o embelezamento. Sendo o amor cuidado, a beleza é eterna. A poesia é o rebento do amor e da alma.

Nelson Rodrigues estava certo ao dizer que não fosse pela morte não haveria o amor. A paixão é um sentimento comum à condição humana, principalmente entre jovens. Mas tão logo se apaixonam, descobrem a inexorável mudança. O segundo olhar não será como o primeiro; o segundo beijo, diferente do antecessor. Mesmo que o casal mantivesse os olhos fixos um no outro, a mudança seria inevitável. Desejamos que o instante de experiência profunda seja eterno. Não importa que ele envolva uma paixão, o nascimento, a morte, um banquete, o triunfo ou o lamento pela derrota, a celebração da cidade, o embelezamento ou a degradação, a arte eterniza esses instantes. Um dos maiores exemplos de como a experiência amorosa e o embelezamento geram a poesia foi a obra de Francesco Petrarca.

Na poesia lírica de Petrarca encontramos todos os lugares-comuns da poesia amorosa ocidental. É impressionante, no entanto, como ele transformou uma experiência profunda, como a paixão, num conjunto de símbolos, organizados por sua visão de mundo, culminando numa obra maravilhosa. O mesmo acontecera com Homero, Virgílio, Horácio, Dante, Camões, Cervantes, Goethe, entre outros. Como não sentir isso nos Últimos sonetos, de Cruz e Sousa, ou na poesia hedionda de Augusto dos Anjos?

Assim sendo, o leitor precisa de sensibilidade para sentir “na dor lida”, “não as duas” dores — a sentida pelo poeta e a expressa no poema —, mas a dor universal (“a que ele não tem”), como nos diz Fernando Pessoa, no famoso poema Autopsicografia. Ou seja, a relação entre o sentimento transmitido pelo poema e a experiência profunda, do individual para o universal, não é outra coisa senão o que Aristóteles, em sua Poética, chamou de “mímises” (figuração).

Qualquer crítica que valorize a obra pela ideologia (classe, gênero ou partido político a que pertence o poeta) poderá empreender um estudo sociológico e político; jamais estético, porque estará discutindo elementos contingentes à experiência profunda a que poderíamos — por que não? — chamar de poesia. Não se trata de exigir uma poesia limpa; pelo contrário: suja de vida. É antes essa contemplação (tanto no sentido de admirar-se como no sentido destacar, ofertar) da poesia como experiência do mundo uma forma, por meio da qual a obra transmite simbolicamente a sensação da verdade da existência. É algo que garante o sentido de cultura como o conjunto de símbolos, como defende o filósofo austríaco Eric Voegelin.

Na história de nossa literatura, por exemplo, vimos o quão improfícuas foram as tentativas críticas de justificar a poesia com a independência política para a criação de uma “identidade nacional”, ou com estudos que investigavam “raças” e “grupos”, entre outros. Contemporaneamente ainda há estudos sociológicos e políticos que utilizam a poesia para validar certos grupos (muitas vezes por meio de teorias pedantes e criações ideológicas) cujo único intuito está em salvaguardar bolsas universitárias, cátedras e cargos públicos. Por trás de discursos dos salvadores de “vítimas sociais”, podemos vislumbrar com horror somente afetação, nunca poesia!

A Verdade
Como disse o poeta francês Charles Baudelaire num dos esboços de prefácio para As flores do mal: “Ora, o poeta não é de nenhum partido. Senão seria um simples mortal”[3]. Há mais verdade no fingimento dos poetas do que em toda a ciência política. A ideologia é o contrário da poesia. Essa concepção política da realidade serve como o imperativo de Antonio Gramsci, segundo o qual tudo é política. Como o discurso dos antigos sofistas combatidos por Sócrates, Platão e Aristóteles, o discurso ideológico não necessita preservar o embelezamento nem contemplar a verdade; deseja apenas demover as massas e saber quem são os aliados, quem são os inimigos. A ideologia é o bordão usado para tanger o rebanho. A poesia é o canto de júbilo ou de angústia de quem sabe o gosto do amor e da morte.

Como o Homem não deixou nem deixará de fugir de seu próprio mal; pelo contrário, em seu anseio pelo poder, cria mecanismos reducionistas e gaiolas ideológicas para justificar sua mediocridade espiritual, num época como a nossa em que o pensamento ideológico, por mais nefasto como se mostrara com a morte de milhões daqueles que não serviram nas justíssimas utopias, tem triunfado, a poesia é imprescindível para o pensamento amplo, para a liberdade verdadeira geradora da arte, e para entendimento da existência, esse trágico abismo de beleza.

NOTAS

[1] PAZ, O. Signos em rotação. Trad. Sebastião Uchoa Leite. São Paulo. Ed. Perspectiva, 1976, p. 49

[2] Cf. IANNACE, Ricardo. A leitora Clarice Lispector. São Paulo. Ed. Udusp, 2001, p. 185.

[3] Cf. BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Trad. Mário Laranjeira. São Paulo. Martin Claret, 2011.

WAGNER SCHADECK É POETA,TRADUTOR E EDITOR

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